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Nossa Perspectiva:
O que as pessoas com Esclerodermia querem que o Médico
saiba
A Presidente da Federação de Ligas Européias
de Esclerodermia, Ann Kennedy, da Sociedade Irlandesa
de Pacientes com Raynaud e Esclerodermia, foi convidada
a proferir palestra durante o encontro do consórcio
europeu que lida com a doença, em Bad Nauheim,
janeiro de 2007. Veja seu discurso e posicione-se.
"Obrigado por me convidar para falar aqui hoje.
Estou me juntando a vocês como representante da
jovem organização FESCA, Federation of
European Scleroderma Associations (Federação
das Associações Européias de Esclerodermia),
e em nome da FESCA eu gostaria de agradecer ao EUSTAR
(Eular Scleroderma Trials and Research) por nos ter
dado esta oportunidade única de falar sobre o
que as pessoas com Esclerodermia precisam que seus médicos
saibam.
Inicialmente, umas poucas palavras sobre a FESCA: Em
Amsterdã, em junho de 2006, um grupo de 12 sociedades
de apoio a pacientes com Esclerodermia de toda a Europa
reuniu-se pela segunda vez, a primeira tendo sido em
Florença um ano antes, para desenvolver a constituição
e a estrutura dessa nova Federação. Nossa
missão é representar os interesses daqueles
que têm Esclerodermia. Temos, desde então,
recebido solicitações de outros países
para o quadro de associados, e estamos em fase de trabalhos
burocráticos necessários em Bruxelas.
Amanhã e sábado realizaremos encontros
aqui para finalizar o status oficial da FESCA. Nosso
objetivo é promover o avanço do conhecimento,
da pesquisa e da informação no campo da
Esclerodermia dentro das áreas médica,
governamental e social, e aumentar a conscientização
sobre a doença em meio ao público geral.
Formando essa Federação, criaremos também
um ponto de acesso para vocês, médicos,
para uma maior combinação de dados de
pesquisa potenciais, visto que esperamos em última
análise atingir toda pessoa portadora de Esclerodermia
na Europa.
Eu mesmo sou um CEO (Chief Executive Officer) da Irish
Raynaud's & Scleroderma Society (Sociedade Irlandesa
de Raynaud e Esclerodermia), de um dos menores países
na Europa, mas uma das sociedades estabelecidas há
mais tempo. Devo enfatizar que eu mesmo tenho apenas
Raynaud e não sofro de Esclerodermia. Contudo,
estou expressando os comentários diretos de pessoas
com Esclerodermia, e coletei respostas por toda a Europa
para lhes dar uma idéia de qual é a perspectiva
delas. Lerei alguns desses comentários para vocês
nas palavras de quem os escreveu. Estou representando
também as pessoas com quem falo diariamente na
Irlanda, que estão lutando contra a Esclerodermia
em um país com um dos sistemas de saúde
menos bem organizados da Europa, e com as mais baixas
taxas de reumatologistas. Kim Fligelstone, que tem Esclerodermia,
cujos comentários são refletidos em sua
palestra, e cuja Sociedade de Esclerodermia no Reino
Unido é um membro da FESCA, também está
aqui para responder a perguntas comigo posteriormente.
Sabemos que vocês, como médicos, querem
ajudar esse grupo de pessoas tanto quanto possível.
Visto que se trata de uma doença rara, e visto
que em alguns países os médicos não
recebem treinamento específico sobre ela e, ainda,
que vocês ficam assoberbados por doenças
mais difundidas, tais como Artrite Reumatóide,
é difícil para vocês entender o
que significa realmente ter essa doença, e o
que os seus muitos impactos fazem nas várias
partes do corpo que pode atacar. Algumas das sugestões
que seguem serão parte da prática geral
em centros especializados estabelecidos, mas tais centros
não são, infelizmente, a norma. De fato,
a maior necessidade para alguém quem tem essa
condição é ser visto regularmente
por pessoas com conhecimento específico. Reconhecemos
que isso nem sempre é possível, mas é
um dos nossos principais objetivos, como defensores
dos pacientes para assegurar que os portadores de Esclerodermia
possam ser atendidos em Clínicas de Doença
do Tecido Conjuntivo.
Tentarei me abster de usar a palavra "paciente"
durante esta palestra, porque embora em um ambiente
hospitalar colocar essa palavra seja aceitável,
geralmente não é aceitável para
aqueles que têm uma doença crônica
vitalícia. Eles não desejam que sua doença
defina sua vida. Se uma pessoa tem diabetes, essa pessoa
é um "paciente" no hospital e uma "pessoa
com diabetes" o resto do tempo, e essa é
uma maneira na qual nós podemos assegurar controle
sobre nossa doença.
Dito isso, essa é uma doença diferente
de qualquer outra pela forma implacável de sua
investida. Ela ataca a aparência pessoal, a habilidade
para se alimentar e se vestir, a mobilidade, a digestão,
a respiração, a deglutição,
o próprio ritmo cardíaco. A gente nunca
sabe o que vai acontecer a seguir. A gente nunca sabe
que parte do nosso corpo nos abandonará de repente.
Talvez ainda possamos subir escadas, mas temos diarréia
incessante e não ousamos sair de casa. Talvez
ainda possamos segurar um garfo, mas não possamos
comer sem engasgar, assim não ousamos fazer uma
refeição em público. Talvez não
possamos nos despir ou ir ao toalete sem ajuda, por
causa das feridas abertas em nossas mãos. E eu
ainda não mencionei o ataque de Esclerodermia
nos principais órgãos. Os sintomas menores
são suficientes para incapacitar aquele que sofre.
Ouvi pessoas descreverem a si mesmas como "presos
dentro de seus corpos" por causa do enrijecimento
de sua pele e tendões e, o que é pior,
eles se sentem presos dentro de sua face, sem que ninguém
entenda como é isso. Vocês, os médicos
deles, são os únicos que sabem o que está
acontecendo. Por favor, deixem-nos saber que vocês
entendem. Eles estão confiando em vocês,
e não têm outra esperança. A depressão
é muito comum. Como vocês sabem, essa é,
sobretudo, uma doença de mulheres, e as mulheres
são particularmente sensíveis à
própria aparência. "As pessoas ficam
olhando para mim, o que me deixa nervosa e triste",
diz uma garota. "Isso torna difícil continuar
a cada dia. Eu ainda sou a mesma pessoa por dentro."
"Mulher transformada em pedra", dizia a manchete
de um jornal. É difícil se manter positivo
quando admitido um diagnóstico de uma doença
que não pode ser curada, e que encurtará
sua vida e ao mesmo tempo causará grande dor.
Uma mulher jovem resumiu como se sentia na frase: "Estar
em minha própria prisão privada".
Ela continua (e eu traduzi): "Como vocês
todos estão bem a par, a Esclerodermia é
uma doença crônica que está conosco
para o resto de nossas vidas. A forma como podemos agüentar
a doença obviamente depende da gravidade da condição
e do impacto que ela tem sobre nós individualmente,
mas pode se tornar muito menos opressiva e muito mais
fácil para manejar por médicos compreensivos,
sensíveis e piedosos". É necessário
consideração ao grande número de
sintomas confusos causados pela Esclerodermia. "Sabemos",
diz outra pessoa acometida pela doença, "que
às vezes a lista de nossos problemas pode soar
como uma lista de queixas e gemidos, mas se vocês
ouvirem cuidadosamente, verão que esses sintomas
são aqueles para os quais vocês podem realmente
oferecer ajuda".
Recebo telefonemas de membros cujos médicos
estão tratando os maiores aspectos da Esclerodermia,
tais como problemas renais ou pulmonares, mas que não
estão, por exemplo, dando atenção
à falta de trânsito intestinal, à
azia, ao refluxo, ou à secura nos olhos. Ou eles
não têm tempo suficiente nas consultas
para levantar problemas embaraçosos, ou os médicos
não estão conscientes dos desdobramentos
da enfermidade, e de como são, freqüentemente,
os menores problemas que fazem da vida diária
um tormento. A mãe de uma criança com
prurido insuportável nem mesmo conta ao médico
sobre isso, já que imaginou que esse sintoma
fosse usual em todos os casos de Esclerodermia Localizada,
e que, portanto, ele saberia. As pessoas contam com
as agências de apoio como a minha, se podem encontrá-las,
para fornecer informação. O que elas realmente
precisam é que seus médicos ouçam
e façam a pergunta certa.
Vou agrupar o que precisamos que os médicos
saibam sob os cabeçalhos: Ao Diagnóstico,
Durante o Tratamento, e Vivendo com Esclerodermia.
Ao Diagnóstico
Quando vocês contam pela primeira vez a uma pessoa
que ela tem Esclerodermia, ela não irá,
provavelmente, estar completamente consciente das implicações
deste diagnóstico, e precisará de vocês
para discutir na íntegra o que isso poderia significar.
É um grande choque. De repente ela tem que absorver
que tem uma doença fatal, incurável e
progressiva. Nós entendemos que essa é
uma condição complexa e que não
pode ser manejada em sua totalidade durante a primeira
consulta, mas, por favor, tentem abranger todas as questões
potenciais, e organizar uma consulta de seguimento ou
com vocês ou com uma Enfermeira Especialista.
Pode ser uma boa idéia sugerir que alguém
mais compareça à sessão de diagnóstico
e a cada consulta. É tão fácil
ter desviado e esquecido o que nós queríamos
perguntar. Ouvimos uma parte devastadora da informação
e depois não queremos ouvir nenhuma outra palavra.
E posteriormente não há ninguém
para responder às nossas questões. Ninguém
sabe nada sobre essa doença exceto vocês,
os médicos. Nos sentimos terrivelmente solitários
e isolados.
Cada um de nós dois aqui hoje tem uma irmã
com câncer de mama, e cada um pode dar um excelente
exemplo do que acontece durante e depois desse diagnóstico
inicial: a enfermeira especialista está presente
durante a consulta e, além disso, telefona no
dia seguinte para responder a quaisquer perguntas que
tenham surgido. Esse procedimento padrão para
câncer deveria ser padrão também
para Esclerodermia, mas não é. A Esclerodermia
é pior que o câncer, porque há mais
esperança quando se tem câncer. Os médicos
podem lhe contar o que vai acontecer. A enfermeira de
um asilo havia me contado que o sofrimento da Esclerodermia
terminal é muito pior, e ainda os recursos disponíveis
para cuidados são muito menores, que para o câncer.
Precisamos dos recursos e do respeito que são
conferidos aos pacientes com câncer.
Durante o período inicial de se chegar a um
acordo com a Esclerodermia, algumas pessoas podem se
beneficiar de suporte psicológico. Embora isso
possa não servir a todo mundo, deveria ser oferecido
a todos. O aconselhamento pode ajudar em grande parte
a trazer aceitação da doença. Muitas
famílias são tão dominadas quanto
a pessoa-chave, e são incapazes de dar apoio.
Às vezes eles não suportam falar sobre
isso. Se a pessoa sentada à sua frente tem uma
forma agressiva de doença difusa, é uma
aposta certa que ela precisará de alguma ajuda
para chegar a um acordo com essa condição,
a respeito da qual ela provavelmente nunca ouviu, que
não tem perspectiva de uma cura, e que pode encurtar
sua vida. Uma pessoa ansiosa com doença muito
leve também pode precisar de reforço.
Eu conheço uma mulher mais velha na Irlanda que
tem apenas alguns poucos sintomas, mas que se consumiu
de preocupação e se encontra hoje em uma
instituição psiquiátrica. Conheço
outra jovem mulher que tem um caso muito grave de Esclerodermia
com hipertensão arterial pulmonar, mas ela tem
a perspectiva mais luminosa, mais otimista, devido,
em grande parte, ao excelente apoio em casa. Outra jovem
mulher é atormentada pelas suas telangiectasias,
mas está despreocupada com sua hipertensão
pulmonar. Sintomas menores, tais como calcinose, podem
ser percebidos como a gota d'água, e destróem
inteiramente a paz de espírito. Como nós
somos todos tão diferentes, vocês, como
nossos médicos, necessitarão de uma grande
habilidade para se comunicar. Nosso melhor conselho
seria: por favor, não se esqueçam de que
vocês estão tratando uma pessoa e não
apenas uma doença.
Recomendaríamos também que vocês
adotassem uma abordagem diferente com as jovens e com
as idosas. Uma mulher jovem tem preocupações
diferentes: Ela pode ter filhos? Ela pode esperar manter
sua vida sexual? Ela permanecerá bonita? O que
pode ser feito quanto ao enrijecimento de sua face?
Ela terá problemas de identidade: Quem sou eu?
Quem está no espelho? É menos provável
que uma mulher mais idosa perca seu senso de identidade,
mas ela está mais propensa a desistir, incapaz
de enfrentar sozinha a doença com suas juntas
imóveis e a incontinência. O aconselhamento
psicológico é tão necessário
quanto o tratamento.
Durante o Tratamento
Precisamos acima de tudo confiar em nossos médicos,
mas vocês devem nos ajudar a construir essa confiança.
Os tratamentos para Esclerodermia são bem agressivos,
e a confiança mútua os tornarão
mais fáceis de suportar. Por favor, advirtam
sobre os efeitos colaterais que podem ocorrer, o que
eles significam, e como superá-los. Precisamos
saber que outros medicamentos, vitaminas e suplementos
alimentares devem ou podem ser tomados. Precisamos saber
como nos exercitar, o que evitar, se o tratamento entrará
em conflito com algumas outras condições.
Por favor, não pensem que outro médico
está nos orientando. Se eu tenho enxaqueca, preciso
saber se eu posso às vezes tomar Imigran, ou
se isso desencadeará um ataque de Raynaud. Preciso
de mais ou menos fibras na dieta se minha digestão
estiver difícil? Posso nadar? O Gingko biloba
é contra-indicado com a Varfarina?
Em termos de suas escolhas de tratamento, pedimos que
vocês levem em consideração fatores
como quão debilitante ele é, a distância
que se precisa viajar, e o apoio em casa. Um membro
que recebia Ciclofosfamida com Esteróides diz:
"Se o tratamento acontece a cada 5 semanas por
2 anos, ir e voltar do hospital é muito cansativo,
e quando fico melhor tenho que tomar Ciclo novamente,
e pioro em função dos efeitos colaterais.
Não consigo manter meu trabalho ou minha vida
normalmente. A Ciclo funciona apenas com esteróides
para mim, sendo assim, quando estes foram interrompidos,
meus fatores de inflamação aumentaram
a despeito de ainda estar com Ciclo". Outra mulher
mais velha recebendo Ciclo tornou-se profundamente deprimida
e queria saber se vale a pena continuar com tudo. Ela
não está tomando esteróides e se
tornou extremamente fraca, uma vez que não pode
reter sua alimentação por tempo suficiente
para a digestão.
Injeções e testes sanguíneos são
uma fonte particular de infelicidade para pessoas com
Esclerodermia. Uma enfermeira inexperiente tentando,
sem sucesso, tirar sangue ou introduzir um cateter é
uma cena muito perturbadora. "É melhor admitir
derrota após 2 ou 3 tentativas e delegar a outra
pessoa", diz um membro. "Nós entendemos
que todo mundo tem que aprender mas, por favor, considerem
que em função da raridade da doença,
a maioria de nós já se sente como porquinhos
da Índia." Outra mulher jovem, de Chipre,
faz eco a essa preocupação. "Devido
à Esclerodermia nossas veias tornam-se finas,
sensíveis e difíceis de encontrar",
ela diz. "Como resultado disso, nos deve ser dado
cuidado especial por equipe médica bem-treinada.
Freqüentemente sofremos de dor proveniente da falta
de jeito. A equipe médica bem-treinada contribuirá
muito para nossos tratamentos." Sugerimos que os
médicos especifiquem que seja utilizada sempre
uma agulha tipo borboleta (butterfly). (Tenho certeza
de que todos conhecem esse termo dos flebotomistas para
a agulha que tem um fino tubo de borracha na ponta).
Também sugerimos que vocês treinem sua
equipe para não puxar o torniquete muito apertado,
já que isso algumas vezes desencadeia o ataque
de Raynaud. Precisamos do torniquete um pouquinho mais
frouxo que a maioria das pessoas.
Um membro irlandês que faz uso de Iloprost regularmente
por infusão, e realmente não pode ficar
sem ele, embora tenha ainda seus vinte anos, quer que
os médicos saibam quanto o Iloprost provoca queimação.
Não apenas seu Raynaud torna a infusão
difícil, mas a própria droga que vaza
por suas veias, as fazem mais porosas, e provoca uma
terrível queimação. "É
necessário uma enfermeira especializada para
inserir a agulha de Iloprost", diz ela, "e
se um médico interno prepara a infusão,
ele está me tratando como qualquer outro paciente
que receba medicamentos endovenosos, e não sabe
que isso requer uma agulha muito pequena". Essa
jovem mulher gostaria também que os médicos
soubessem que a queimação provocada pelo
vazamento do Iloprost e a infecção subseqüente
podem ser ajudadas por um emplastro que retira o Iloprost
dos tecidos.
Outra jovem mulher irlandesa com complicações
pulmonares precisou de um cateter central inserido em
seu tórax quando seu Raynaud ficou muito grave
e as veias não puderam ser usadas. Mas a organização
hospitalar ruim tornou sua vida governada pelas visitas
ao hospital em função do cateter, o que
no último verão resultou em septicemia,
pois o cateter era usado uma vez por semana para infusão,
e limpo em outro dia por uma equipe diferente. Gostaríamos
de pedir que sejam dadas instruções a
suas equipes, de forma que as necessidades do paciente
fiquem em primeiro lugar, e não as necessidades
da administração do hospital. Visitei
uma mulher idosa no hospital, cujo dedo havia sido acoplado
a um sensor para a comodidade da equipe, causando um
fenômeno de Raynaud muito doloroso. Muitos me
têm relatado o desconforto de tais sensores e
de como eles desencadeiam ataques de Raynaud.
Uma mulher de seus cinqüenta anos me disse que
seus testes respiratórios deram a informação
errada ao seu consultor por causa da maneira como foram
conduzidos. Vocês, os médicos, solicitam
que sejam realizados testes de função
pulmonar. A seguir, vocês pegam os resultados
e prosseguem, de acordo com os resultados. Eles parecem
suficientemente claros. Contudo, o técnico que
faz os testes de capacidade pulmonar não sabe
que a boca na Esclerodermia é distorcida e inflexível,
e não pode fechar da maneira correta ao redor
do bocal. O bocal padrão usado para o teste pode
permitir que o ar escape perto dos lados do tubo. Um
bocal especial deveria ser usado, mas se vocês
não pedirem isso, o técnico não
o saberá.
Um fator que causa sofrimento a muitos e, no entanto,
tem uma solução simples, é que
as salas clínicas são tão frias
que sempre induzem ataques de Raynaud. Salas de espera,
salas para troca de roupa e laboratórios de flebotomia
devem ser aquecidos com uma temperatura confortável,
ou providos de cobertores quentes. No caso de cirurgia,
precauções especiais devem ser tomadas
para pessoas com problemas circulatórios.
Também achamos que às vezes a espera
é tão longa que os tratamentos subseqüentes
no mesmo dia tornam-se impossíveis, ou o paciente
está em tal estado que não pode continuar.
Eu estava com uma mulher uma vez que, depois de uma
viagem de 3 horas e uma espera ainda maior para ver
o especialista, terminou aos prantos exigindo ir para
casa sem vê-lo. Isso, depois de esperar 6 meses
pela consulta. Se mais de uma consulta ou teste forem
planejados para o mesmo dia, estes precisam ser coordenados.
Acreditamos que o médico é o capitão
desse barco e pode organizar uma tripulação
eficiente. Pedimos que os médicos parem de usar
as desculpas de que não têm nada que ver
com a organização.
No melhor dos cenários, uma equipe de especialistas
de diferentes áreas trabalha em conjunto para
tratar as Doenças do Tecido Conjuntivo, mas algumas
pessoas relatam uma situação de competição
entre os especialistas. Pedimos que haja cooperação
com outras disciplinas, de forma que o tratamento possa
avançar de maneira pró-ativa. Não
nos importamos com a hierarquia. Eu já ouvi muito
freqüentemente de pessoas com Esclerodermia que
descobrem que um de seus atendentes não fala
com o outro. Em um caso neste ano, uma pessoa em quem
foi encontrada hipertensão arterial pulmonar
pelo Ecocardiograma, não obteve seus resultados
até 3 meses mais tarde, depois que ela me pediu
para ajudar. Ela não havia recebido qualquer
tratamento. É realmente demais esperar que o
paciente seja responsável por seu próprio
planejamento.
Pedimos também pela continuidade do tratamento,
de forma que os mesmos médicos estejam disponíveis
durante um longo período de tempo, e de forma
que eles saibam a respeito dos problemas individuais.
Talvez uma caderneta na qual exames, testes e tratamentos
sejam registrados ajude a evitar exames, raios-x ou
vacinações repetidos por diferentes médicos.
Afinal, essa é uma doença vitalícia.
Já mencionei a necessidade de os médicos
prestarem atenção aos vários sintomas
menos ameaçadores e variáveis. Tenho visto
casos em que o especialista pensa que o médico
clínico geral está cuidando de tais sintomas.
Uma pessoa pode entrar em sua consulta com múltiplos
problemas para discutir, mas as úlceras gangrenadas
em seus dedos tomam todo o tempo disponível,
não deixando nenhum para a calcinose no dedo
do pé, muito menos uma discussão sobre
as dificuldades para deglutir. Dado que isso é
uma condição complexa, é necessário
tempo suficiente para cada sessão. Um membro
escreve que sua necessidade mais importante é
que "o médico OUÇA o que temos para
dizer, e crie tempo para nós". Ela continua:
"Eu sei que os médicos estão preocupados
com sintomas ameaçadores à vida, mas para
nós diarréia constante ou uma mudança
de aparência pode ser a questão importante,
sem mencionar os problemas de invalidez que alguns de
nós que temos mãos deformadas precisamos
suportar".
Relacionado a isso, está uma outra questão.
Vocês aqui hoje são todos especialistas
que sabem sobre a Esclerodermia, mas pedimos que os
médicos que NÃO a conhecem (médicos
que desenvolvem protocolos em um hospital, por exemplo)
estejam dispostos a ouvir os pacientes que podem saber
mais que eles sobre sua própria doença
e os problemas relacionados a ela, e que esses médicos
não menosprezem as descrições daqueles
que estão tentando ajudar.
Mencionei o intestino. A maioria das pessoas não
sabe que praticamente todas as pessoas com Esclerodermia
sofrerão de problemas no trato digestivo. Eles
ficam envergonhados de discutir sua incontinência
ou sua constipação excessiva. Algumas
vezes o intestino pára de trabalhar completamente
e não funciona por uma semana. Toda vez que falo
com um grupo de pessoas com Esclerodermia, alguém
vem até mim posteriormente e diz "eu nunca
soube que minha diarréia era relacionada. Eu
nunca disse ao médico, pois nunca gostei de incomodá-lo,
mas meu alimento apenas passa através de mim".
Por favor, discutam os problemas intestinais com seus
pacientes e os orientem sobre o que fazer a respeito.
Eles têm medo de tomar medicamentos sem indicação
em função do risco de que sejam incompatíveis
com seu tratamento. Eu sei de várias pessoas
que não sairão de casa, porque não
podem controlar suas evacuações.
Vivendo com Esclerodermia
Como a maioria de nós sabe, a Esclerodermia muda
completamente a vida. "É como viver com
uma bomba relógio", diz uma mulher. "Se
eu tivesse câncer haveria uma possibilidade de
ser curada, mas no caso da Esclerodermia, nós
precisamos viver com ela até a morte". Alguém
que luta contra a Esclerodermia pode perder o companheiro,
o trabalho e o estilo de vida. Poucos podem continuar
trabalhando. Alguns têm de enfrentar o abandono
de seu esposo ou a incapacidade de ser a mãe
que era antes. Do lado positivo, a doença pode
fazer uma pessoa determinada a lutar, e alguns dizem
que a doença os mudou para melhor, ajudou a estabelecer
suas verdadeiras prioridades. Mas para executar isso,
é necessária uma aceitação
completa, e precisamos de médicos para ajudar
nisso. Precisamos de médicos que assumam responsabilidade
pela vida por inteiro, e não apenas pelas partes
doentes de seus pacientes, já que essa é
uma doença para toda a vida. Por favor, ajudem
a pessoa com Esclerodermia que vem até vocês
a aprender a viver com a doença. Para que isso
seja possível, ela deve entendê-la, e no
início a doença é simplesmente
incompreensível. Portanto ela precisa aprender
a viver em um nível diferente, com expectativas
diferentes, e a repensar como pode ser útil e
como viver uma vida de valor.
Claro que sabemos que vocês são pessoas
ocupadas! Mas se vocês fizerem disso sua obrigação,
encontrar e recomendar uma agência de apoio em
seu país, onde existam pessoas que ouvirão
quando os maridos pararem de ouvir, darão informação
quando a web aterrorizar, e explicarão coisas
quando ninguém mais puder explicar, então
vocês estarão dando uma corda salva-vidas
à sua paciente. Vocês podem ajudar essas
organizações fazendo apresentações
e transmitindo os achados das pesquisas mais recentes.
Sei que muitos consultores preparados já estão
fazendo isso, mas precisamos de todos vocês, especialmente
naqueles países onde especialistas em Esclerodermia
são raros.
Vocês também podem investigar e sugerir
terapias alternativas que acreditem ser valiosas. Não
quero dizer terapias que podem ser um fator de perigo,
como acupuntura, mas coisas simples como banhar os dedos
com cera quente, terapia com oxigênio hiperbárico,
massagem, reflexologia e fisioterapia particular, se
nenhum for oferecido pelo serviço público.
Metade do valor desses tratamentos advém do fato
de que as pessoas bem-treinadas que os praticam sempre
ouvem e acalmam, como conselheiros psicológicos.
Uma nova biografia de uma norte-americana com Esclerodermia
descreve como sua completa remissão da Esclerose
Sistêmica, ou uma cura milagrosa ou uma tendência
para o futuro, foi afetada pela mente aberta de seu
médico americano para todas as terapias. Maureen
Taylor tentou de tudo, desde uma dieta macrobiótica
até trigo, desde ioga até magnetoterapia,
concomitantemente com cuidado médico tradicional,
especificamente tratamento com antibióticos.
Ela atribui sua cura à concordância de
seu especialista com essas terapias. Por favor, apóiem
e investiguem todas as opções.
Estejam conscientes de que muitas das pessoas com Esclerodermia
também tentarão se adaptar às mudanças
nas circunstâncias financeiras. Para a maioria
das pessoas o diagnóstico de Esclerodermia significa
uma queda na renda em um momento em que eles mais precisam
de renda. Terapias como uma massagem semanal custam
dinheiro e estão fora do alcance de muitos que
lutam contra uma renda baixa. Se vocês sabem as
maneiras pelas quais o seu sistema de saúde sustenta
a terapia, considerem como parte de seu trabalho dizer
à sua paciente.
Fizemos um apelo às companhias de seguro de
saúde para que estas dêem aos médicos
a liberdade que eles exigem, em vez de impor regulamentos,
trabalhos burocráticos e orçamentos. Se
isso parece aplicável ao seu país, talvez
vocês possam pensar em maneiras de trabalhar com
as seguradoras para obter um resultado melhor. Talvez
vocês possam trabalhar para conseguir drogas para
Esclerodermia em listas de prescrição
pagas, ou que pacientes com Esclerodermia sejam aceitos
em asilos. Um de nossos objetivos na FESCA é
estabelecer paridade por toda a Europa para todos os
que têm Esclerodermia.
Finalmente - e obrigado por sua paciência - essa
doença é estressante. Por favor, ajude-nos
a manter o estresse baixo, assegurando que suas enfermeiras
sejam amigáveis e suas salas, confortáveis.
Muitos médicos apressam-se de um lado para o
outro, e nem mesmo sabem que têm uma recepcionista
hostil e não-prestativa. Uma palavra amigável
ajuda muito.
Para concluir gostaríamos de insistir que não
interessa quão doente alguém pode parecer,
sempre há esperança. Por favor, nunca
desistam de nós. A doença renal foi, no
passado, uma sentença de morte: não é
mais. No passado a hipertensão pulmonar significava
morte: não significa mais. Minha irmã
virou seu rosto para a parede e morreu quando achou
que seus médicos haviam desistido dela. Mesmo
quando estejam oferecendo apenas cuidados paliativos,
não deixem seu paciente perder a esperança.
Tentaremos o máximo que pudermos, e nós
precisamos saber que vocês farão o mesmo,
e juntos quem sabe? Talvez possamos fazer milagres acontecer.
Obrigado."
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