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Úlceras Digitais em Pacientes com Esclerose Sistêmica
Uma complicação grave e debilitante à espera de um tratamento eficaz


O comitê científico da Agência Européia de Avaliação de Medicamentos (EMEA) emitiu, na semana passada, opinião positiva à extensão de uso do medicamento bosentana (Tracleer*), atualmente utilizado para o tratamento da Hipertensão Arterial Pulmonar.

O Comitê de Medicamentos para Uso Humano (CHMP) recomendou a aprovação do remédio na redução do número de novas úlceras digitais em pacientes com esclerose sistêmica e na presença da manifestação clínica da doença – úlcera digital (UD) - em curso.

A esclerose sistêmica caracteriza-se por três achados cardinais: ativação autoimune/ inflamação; vasculopatia e fibrose. Estes três mecanismos interligados produzem o quadro clínico da doença, que através do fenômeno de ativação autoimune, produz alterações estruturais nas células endoteliais (formadoras internas dos vasos sagüíneos), com inflamação e posterior fibrose. Embora todos esses fenômenos estejam presentes nas doenças do tecido conjuntivo (lupus, polimiosite, etc), sabe-se que a vasculopatia tem participação fundamental na base de todas as manifestações degenerativas da ssclerose sistêmica. Sua presença na verdade denuncia um alto risco para o desenvolvimento de úlceras digitais e hipertensão arterial pulmonar como complicações nesta sub-população.

A úlcera digital (UD) é considerada complicação dolorosa, debilitante e recorrente na esclerose sistêmica. Sabe-se que cerca de 50% dos pacientes portadores da doença de base desenvolverão UDs em algum momento de suas vidas1 Recentes publicações científicas estimaram que a prevalência de hipertensão arterial sistêmica nos pacientes com esclerose sistêmica é aproximadamente de 12-16%.2,3 E cerca de 50% dos pacientes com esclerose sistêmica apresentam UDs pelo menos uma vez no curso da sua doença.

As UDs são lesões muito dolorosas, que evoluem com grande dificuldade de cicatrização. Encontram-se localizadas nos dedos das mãos, eventualmente também dos pés. Sem tratamento adequado, resultam em cicatrizes com elevado grau de atrofia. Estas seqüelas acabam por reduzir a capacidade funcional tanto no campo profissional quanto nas atividades simples e diárias para os pacientes. Os casos mais graves podem desenvolver infecção, degenerar em osteomielite e gangrena, onde o procedimento cirúrgico e a possível amputação do local acometido podem ser necessários. A participação dos pacientes, procurando rapidamente o profissional reumatologista aos primeiras sinais e sintomas, é fundamental para evitar tais complicações.

O processo de foramção das UDs explica-se por uma diminuição da luz dos pequenos vasos sangüíneos das extremidades, que ocorre em resposta à proliferação das células endoteliais/ proliferação e hipertrofia das células musculares lisas, com aumento do depósito de matriz extracelular. Disto resulta uma perda da elasticidade da parede do vaso, com formação posterior de trombose e eventual obliteração, com falta de oxigênio para os tecidos a jusante. Exatamente igual ao que acontece no pulmão quando há hipertensão arterial pulmonar. Aqui a obstrução aliada ao comprometimento da luz vascular produz uma diminuição do fluxo sangüíneo nos dedos das mãos e dos pés. Esse mecanismo, o qual resulta em disfunção e remodelamento vascular, tem entre seus fatores causais a presença da endotelina, mediador patogênico, com atividade vasoconstritora e mitogênica potente, implicada nas lesões degenerativas da esclerose sistêmica.

RAPIDS-1
Vários estudos internacionais atualmente recebem denominações especiais para serem melhor memorizados. Um destes estudo recentes se chamou RAPIDS-1 (RAndomized Placebo-controlled Investigation of Digital ulcers in Scleroderma), que avaliou a prevenção da formação de UDs em 122 pacientes com esclerose sistêmica em 17 centros na Europa e na América do Norte, em uso de bosentana. Além disto, o estudo tambémavaliou a eficácia clínica do medicamento na esclerose sistêmica.4 Pacientes com Esclerose sistêmica, os quais tinham histórico de uma úlcera digital nos últimos12 meses ou um quadro clínico ativo de UDs no momento do recrutamento, receberam bosentana durante 4 semanas e após 125mg duas vezes ao dia, pelas próximas 12 semanas, ou placebo. O número total de UDs durante o período de tratamento foi 1,4 por paciente em uso de bosentana versus 2,7 por paciente do grupo controle, o que representa 48% de redução no número de novas UDs.5

RAPIDS-2
Já este outro estudo sobre o uso de bosentana em úlceras isquêmicas digitais secundárias à esclerose sistêmica. Em contraste com o ensaio clínico anterior RAPIDS-1, esse último teve como proposta avaliar a prevenção e o processo de cicatrização nessa população portadora das formas mais graves da doença quando do recrutamento. A duração do tratamento foi mais longa e o período de retirada do estudo foi avaliado de forma a se inferir a evolução das UDs após a interrupção do tratamento. O ensaio envolveu 188 pacienets em 41 centros em todo mundo.5 Pacientes com esclerose sistêmica portadores de apenas uma única UD foram tratados com bosentana por no mínimo 20 semanas e no máximo 32 semanas ou placebo. O número total de novas UDs após 24 semanas foi 1,9 nos pacientes do grupo bosentana versus 2,7 nos pacientes do grupo placebo, representando 30% de redução no número de novas UDs. A redução das UDs foi mais pronunciada nos pacientes com um número maior que três úlceras digitais ativas no momento do recrutamento para o estudo.6

Referências
1.Black C. Pulmonary arterial hypertension: are we doing enough to identify systemic sclerosis patients at high risk of this rare condition? Rheumatology 2005, 44: 141-142.2.McGoon M. et al. Chest 2004, 126: 14-34. 3.Distler O. and Pignone A.Rheumatology (Oxford) 2006, 45 Suppl 4: iv22-iv25. 4. Korn J. et al. Digital ulcers in systemic sclerosis: Prevention by treatment with bosentan, an oral endothelin receptor antagonist Arthritis & Rheumatism 2004, Issue 12; 50: 3985-3993. 5. Seibold J. et al. Bosentan prevents occurrence but does not speed healing of digital ulcers in patients with systemic sclerosis (SSc). ACR 2005. Poster presentation L2: 552

2006, 2 com arte programação visual, RIo de Janeiro - RJ